Beirando a conclusão de sua terceira década, Tereza, melindrosa, se depara com a dolorosa sina: são os olhos de Fabinho que ela busca. Em todos os amores, amantes, namorados, rolos, maridos, casos não realizados, ela procura os olhos de homem de verdade que o menino de seis anos parecia ostentar.
Sunday, July 05, 2009
Tereza XXX
Beirando a conclusão de sua terceira década, Tereza, melindrosa, se depara com a dolorosa sina: são os olhos de Fabinho que ela busca. Em todos os amores, amantes, namorados, rolos, maridos, casos não realizados, ela procura os olhos de homem de verdade que o menino de seis anos parecia ostentar.
Beirando a conclusão de sua terceira década, Tereza, melindrosa, se depara com a dolorosa sina: são os olhos de Fabinho que ela busca. Em todos os amores, amantes, namorados, rolos, maridos, casos não realizados, ela procura os olhos de homem de verdade que o menino de seis anos parecia ostentar.
Fabinho
E quem disse que criança não sofre de rejeição amorosa? Se isso vira trauma, mancha no passado ou cria motivo pra regressão, já é outra história. Mas que eu faltei morrer quando, com seis ou sete anos, fui enxotada pelo Fabinho, ah, faltei.
Uma fila de meninos de um lado e uma de meninas de outro. A Patrícia já me avisou antes: vou dizer que quero o Leonardo e pronto. Eu duvidei, encolhida, acanhada, barriga gelada de vergonha. Pois ela anunciou e deve ter sido aplaudida silenciosamente: tia, só danço se for com o Leonardo. Ele ficou meio constrangido, mas gostou da idéia. E a tia, aliviada: ótimo, já temos o primeiro par.
Uma coragem que eu nunca tive veio vindo, veio vindo e eu falei, sem pensar muito: e eu só danço se for com o Fabinho. Riram, gargalharam. Olhei pra ele, vermelho. A pobre da tia, rindo também, perplexa, disse: está bem, mais um par. Ei, tia, eu não quero. Era o bolha do Fabinho choramingando. Levei as mãos ao rosto. Eu não sabia onde me esconder. Ou não saberia, se isso fosse verdade. O fato é que o Fabinho, viadinho, não disse nada. Só ficou vermelho. Deve ter querido dizer, mas eu quase lhe dei uma chave de coxa. Coragem que eu nunca vi, credo. E nem tinha feito a primeira comunhão ainda.
Vi, vim e venci. Dancei com o molenga do Fabinho. No ano anterior, a tia tinha escolhido os pares e eu caí justo com ele. O par perfeito, o menino e a menina mais tímidos e miudinhos da classe. Dançamos sei lá o quê, talvez uma jovem guarda, com um laço cor-de-rosa a enfeitar. O puto do Fabinho nem pra conversar. Todos os ensaios e o baile e eu nem ouvi o timbre da voz do retardado. Em nenhum dos anos. Nem na classe ele lia. Eu, de minha parte, morria de vergonha, mas lia: macha, guerreira. E até cutucava o Fabinho pra ler também. Ele, sonso, nem miava.
Uma vez foi o Zé Alcir que eu salvei. Tinha um menino ameaçando ele. Pois eu montei no menino e disse deixe meu amigo em paz! Não vi nada até abrir os olhos e sentir o cheiro da lama. Caí numa poça. Nem sei como fui arremessada, mas estava longe da cena. Meu pai brigou comigo: parece menino.
E a porra do Fabinho foi só o primeiro. Rejeição sim senhor. E há rejeição maior do que não dirigir palavra à sua dama por dois anos seguidos? E mesmo tendo sido escolhido? Um bolha completo. Só o primeiro de tantos. Só o primeiro que eu quis bater. E foi no baile que eu aproveitei. Depois da dança, dei-lhe um pisão inesquecível. E um soco mortal no estômago. E pedi que morresse. O trouxa soluçou e fez biquinho, como se fosse chorar. Eu fiquei com medo de apanhar da mãe dele e do meu pai. Pedi desculpas. Disse que foi sem querer. Coloquei meu braço no ombro dele e perguntei se ele ainda era meu amigo. O idiota fez que sim. Antes tivesse sido com emoção assim. Tudo mentira. A verdade mesmo é que, quando a música acabou, a bonequinha virou as costas e foi descer do palco, antes de todo mundo – e imagine que, por sermos pequenos, éramos o casal da frente. Fiquei com cara de tacho, sozinha. Meu pai filmou tudo. Baixei a cabeça, arrasada. Lamentei.
FEV/2006
E quem disse que criança não sofre de rejeição amorosa? Se isso vira trauma, mancha no passado ou cria motivo pra regressão, já é outra história. Mas que eu faltei morrer quando, com seis ou sete anos, fui enxotada pelo Fabinho, ah, faltei.
Uma fila de meninos de um lado e uma de meninas de outro. A Patrícia já me avisou antes: vou dizer que quero o Leonardo e pronto. Eu duvidei, encolhida, acanhada, barriga gelada de vergonha. Pois ela anunciou e deve ter sido aplaudida silenciosamente: tia, só danço se for com o Leonardo. Ele ficou meio constrangido, mas gostou da idéia. E a tia, aliviada: ótimo, já temos o primeiro par.
Uma coragem que eu nunca tive veio vindo, veio vindo e eu falei, sem pensar muito: e eu só danço se for com o Fabinho. Riram, gargalharam. Olhei pra ele, vermelho. A pobre da tia, rindo também, perplexa, disse: está bem, mais um par. Ei, tia, eu não quero. Era o bolha do Fabinho choramingando. Levei as mãos ao rosto. Eu não sabia onde me esconder. Ou não saberia, se isso fosse verdade. O fato é que o Fabinho, viadinho, não disse nada. Só ficou vermelho. Deve ter querido dizer, mas eu quase lhe dei uma chave de coxa. Coragem que eu nunca vi, credo. E nem tinha feito a primeira comunhão ainda.
Vi, vim e venci. Dancei com o molenga do Fabinho. No ano anterior, a tia tinha escolhido os pares e eu caí justo com ele. O par perfeito, o menino e a menina mais tímidos e miudinhos da classe. Dançamos sei lá o quê, talvez uma jovem guarda, com um laço cor-de-rosa a enfeitar. O puto do Fabinho nem pra conversar. Todos os ensaios e o baile e eu nem ouvi o timbre da voz do retardado. Em nenhum dos anos. Nem na classe ele lia. Eu, de minha parte, morria de vergonha, mas lia: macha, guerreira. E até cutucava o Fabinho pra ler também. Ele, sonso, nem miava.
Uma vez foi o Zé Alcir que eu salvei. Tinha um menino ameaçando ele. Pois eu montei no menino e disse deixe meu amigo em paz! Não vi nada até abrir os olhos e sentir o cheiro da lama. Caí numa poça. Nem sei como fui arremessada, mas estava longe da cena. Meu pai brigou comigo: parece menino.
E a porra do Fabinho foi só o primeiro. Rejeição sim senhor. E há rejeição maior do que não dirigir palavra à sua dama por dois anos seguidos? E mesmo tendo sido escolhido? Um bolha completo. Só o primeiro de tantos. Só o primeiro que eu quis bater. E foi no baile que eu aproveitei. Depois da dança, dei-lhe um pisão inesquecível. E um soco mortal no estômago. E pedi que morresse. O trouxa soluçou e fez biquinho, como se fosse chorar. Eu fiquei com medo de apanhar da mãe dele e do meu pai. Pedi desculpas. Disse que foi sem querer. Coloquei meu braço no ombro dele e perguntei se ele ainda era meu amigo. O idiota fez que sim. Antes tivesse sido com emoção assim. Tudo mentira. A verdade mesmo é que, quando a música acabou, a bonequinha virou as costas e foi descer do palco, antes de todo mundo – e imagine que, por sermos pequenos, éramos o casal da frente. Fiquei com cara de tacho, sozinha. Meu pai filmou tudo. Baixei a cabeça, arrasada. Lamentei.
Tuesday, June 16, 2009
Lançamentos imperdíveis

Orixás em releitura primorosa
Amanhã, 17/6, será lançado o livro Oyé Orixá - umbanda e a síntese dos princípios do branco, do vermelho e do negro, de Marcelo Costa Nunes e Rafael Alves. Um apanhado cuidadoso dos mitos dos orixás africanos, em leitura baseada nos princípios da umbanda. Lindo trabalho. O evento tem início às 19h, no Rayuela (412 Sul).
Paixão nacional em livro
O país do futebol já mostrou que, em termos literários, seus assuntos preferidos passam longe das típicas paixões nacionais: são raríssimos os livros literários que tratam de futebol ou de samba, pra falar o óbvio. Como também são raras as presenças dos diversos povos que compõem o Brasil. Os temas e os personagens, segundo pesquisa da Regina Dalcastagnè, da UnB, costumam retratar 'amor' e 'brancos bem sucedidos', respectivamente. Claro que há exceções e aqui trago uma delas: será lançado na próxima sexta, 19/6, o livro A cabeça do futebol. Crônicas, poemas, contos, ensaios de Fabrício Carpinejar, Daniel Piza, Luiz Martins da Silva, Klecius Henrique, Selma Oliveira, Humberto Werneck, Xico Sá e outros, organizados pelo meu amigo Gustavo de Castro e seus confrades Samarone Lima e Carlos Magno Araújo. O lançamento, será na Livraria Cultura, a partir das 19h30.
Friday, June 05, 2009
O retorno dos Sant'Annas
Minha amiga Jeanne Alves é portadora de boas notícias: acaba de sair pela Cia das Letras uma linda edição do melhor livro de Sérgio Sant'Anna, Um romance de geração, de 1988, e André Sant'Anna lançou o instigante Inverdades. O filho é um excêntrico cheio de crítica muito contundente e o pai está entre os melhores autores vivos da atualidade.
Troca de livros
O Estante Virtual, site que organiza compra e venda de livros usados pela internet, lançou esta semana o Programa Nacional de Troca de Livros. A idéia é muito interessante, se baseia em créditos para compras futuras, mas o aspecto virtual se perde. "Você leva nos sebos os seus livros seminovos e ganha créditos para adquirir seu próximo livro. E a avaliação é justa, nada de 1 real por livro! Na troca por livros do acervo do sebo, seu livro vale 25% do preço atual nas livrarias convencionais", propõem os organizadores. Mais informações aqui.
Minha amiga Jeanne Alves é portadora de boas notícias: acaba de sair pela Cia das Letras uma linda edição do melhor livro de Sérgio Sant'Anna, Um romance de geração, de 1988, e André Sant'Anna lançou o instigante Inverdades. O filho é um excêntrico cheio de crítica muito contundente e o pai está entre os melhores autores vivos da atualidade.
Troca de livros
O Estante Virtual, site que organiza compra e venda de livros usados pela internet, lançou esta semana o Programa Nacional de Troca de Livros. A idéia é muito interessante, se baseia em créditos para compras futuras, mas o aspecto virtual se perde. "Você leva nos sebos os seus livros seminovos e ganha créditos para adquirir seu próximo livro. E a avaliação é justa, nada de 1 real por livro! Na troca por livros do acervo do sebo, seu livro vale 25% do preço atual nas livrarias convencionais", propõem os organizadores. Mais informações aqui.
Friday, May 29, 2009
Tereza XXIX
A amiga da amiga da prima de Tetê é uma besta. Quando o amado quer, ela está disponível. Safadinha. De longe, sofre, se acaba. Mas expõe, orgulhosa, os dentes mais brancos que puder ao cafajeste. Se ele pede. Dengosa, implora atenção, elogio. Volta, perdôa, ama. Amiga da amiga da prima de Tetê. Tão longe, de longe, range as unhas e rói os dentes, agoniada, sem outro destino possível. É mais uma. É amiga, é prima e é Tetê. Inteira rasgada, partida amadora.
A amiga da amiga da prima de Tetê é uma besta. Quando o amado quer, ela está disponível. Safadinha. De longe, sofre, se acaba. Mas expõe, orgulhosa, os dentes mais brancos que puder ao cafajeste. Se ele pede. Dengosa, implora atenção, elogio. Volta, perdôa, ama. Amiga da amiga da prima de Tetê. Tão longe, de longe, range as unhas e rói os dentes, agoniada, sem outro destino possível. É mais uma. É amiga, é prima e é Tetê. Inteira rasgada, partida amadora.
Tuesday, May 19, 2009
Nilto comenta SLS
Meu super chapa Nilto Maciel, um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, escreveu o texto abaixo em seu blog:
Setor Literário Sul
Liana Aragão, cearense-brasiliense, edita o blog "Setor Literário Sul". Quem conhece Brasília entenderá logo o nome: a capital brasileira é dividida em setores: bancário sul, bancário norte, comercial sul, comercial norte, etc. Liana é escritora (ainda sem livro publicado, mas deve ter muitos contos na gaveta, isto é, no arquivo de seu computador). Li alguns deles: são ótimos. Liana é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (2003). Concluiu o curso de mestrado em literatura brasileira no Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura da mesma universidade, em 2007, e é empregada da Caixa Econômica Federal. Trabalha principalmente com os seguintes temas: representação social, mercado literário brasileiro e autores contemporâneos. O endereço do blog é http://setorliterariosul.blogspot.com Nele o leitor poderá saber tudo o que se passa no setor literário brasiliense (que é bem agitado). E, de sobra, ler os minicontos de Liana, minha amiga (embora nunca a tenha visto).
Palestra de Bárbara Freitag na UnB
Já em comemoração aos 50 anos da capital brasileira, será realizada a palestra "A transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília no Planalto Central", pela professora Bárbara Freitag. Será sexta-feira, dia 22, às 10h.
Meu super chapa Nilto Maciel, um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, escreveu o texto abaixo em seu blog:
Setor Literário Sul
Liana Aragão, cearense-brasiliense, edita o blog "Setor Literário Sul". Quem conhece Brasília entenderá logo o nome: a capital brasileira é dividida em setores: bancário sul, bancário norte, comercial sul, comercial norte, etc. Liana é escritora (ainda sem livro publicado, mas deve ter muitos contos na gaveta, isto é, no arquivo de seu computador). Li alguns deles: são ótimos. Liana é jornalista graduada pela Universidade de Brasília (2003). Concluiu o curso de mestrado em literatura brasileira no Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura da mesma universidade, em 2007, e é empregada da Caixa Econômica Federal. Trabalha principalmente com os seguintes temas: representação social, mercado literário brasileiro e autores contemporâneos. O endereço do blog é http://setorliterariosul.blogspot.com Nele o leitor poderá saber tudo o que se passa no setor literário brasiliense (que é bem agitado). E, de sobra, ler os minicontos de Liana, minha amiga (embora nunca a tenha visto).
Palestra de Bárbara Freitag na UnB
Já em comemoração aos 50 anos da capital brasileira, será realizada a palestra "A transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília no Planalto Central", pela professora Bárbara Freitag. Será sexta-feira, dia 22, às 10h.
Sunday, May 17, 2009
Força estranha (a da gravidade)
Caetano Veloso caiu ontem do palco, em apresentação única na cidade, quando regia a platéia que cantava Força Estranha. Um susto que pareceu não abalar o compositor. O repertório de Zii e Zie representa bem a fase que Caetano vive e compartilha: são poucos os diálogos com a densidade do passado e o experimentalismo chega a cansar. Coisa de adolescente sessentão, que toca um foda-se eloquente e diário às opiniões alheias. Um bom show. Mas prefiro voltar aos meus CDs, sem grilos, tombos ou saudades.
Tuesday, May 12, 2009
Tereza XXVIII
Terezinha, Tereza, Tessa, Teca... Todas e as outras todas são Gigi, inteiramente.
Agostinho da Silva homenageado
Amanhã, a partir das 8h30, acontece o encontro O legado e a missão de Agostinho da Silva, no auditório da Reitoria da UnB. A homenagem ao poeta português é do Departamento de Teoria Literária e Literaturas e a programação inclui palestra, mesa redonda, exibição do filme Pensamento Vivo e os lançamentos da revista Nova Águia e do livro Condições e Missão da Comunidade Luso-Brasileira de Agostinho Silva.
Notícias de Iemini
